Criadores de conteúdo, esse papo é com vocês: o ano começa, e você está com várias ideias, quer escrever mais, postar com frequência, interagir com seus seguidores, aproveitar os recursos da plataforma para gerar mais conversas, fazer negócios também. Aquela animação toda de quem tem algo muito único e autêntico para dividir com mais gente.
Eis que, boom: uma pandemia vivida no Brasil, junto a inúmeras outras notícias muito difíceis de digerir. Se você for do tipo que se deixa levar pelos acontecimentos do dia, talvez tenha ficado difícil produzir no mesmo ritmo de antes, certo? Bate um desânimo, um cansaço, vem aquele questionamento: do que falar agora, como falar, será que é esse o tom, será que não deveria abordar outros assuntos também?
Bem-vindos ao clube dos criadores de conteúdo que são menos máquinas regidas pelo algoritmo (esse grande mistério), e mais gente real, de verdade, com emoções que são diretamente afetadas pelo que acontece no mundo.
Como continuar produzindo conteúdo quando tanta coisa acontece em velocidade vertiginosa? No que se basear: nas lições do marketing digital que muitas vezes pedem uma produção de conteúdo frenética ou no respeito ao seu próprio ritmo? Como seguir adiante quando a criação de conteúdo é mais do que uma vontade, mas também a sua profissão?
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Pra começar, queremos saber: você que é produtor de conteúdo, seja de qual tamanho for sua audiência, como tem se sentido nesses últimos meses? Com mais ou menos energia? Fazendo o estritamente necessário ou com gás até de inventar projeto novo?
Produza o conteúdo que você gostaria de consumir
Quem cria conteúdo na internet em 2020 no mínimo se faz algumas perguntas antes de apertar o botão publicar. Combina com o momento, ou melhor deixar para depois? Isso desperta algum gatilho? É natura, quanto mais pensamos sobre nossa própria atuação, mais vamos construindo #ainternetqueagentequer. Importante, no entanto, lembrar que entre acionar o seu próprio DVDR (departamento de “vai dar ruim”) e criar mais consciência, você pode cair em um limbo: o de travar e deixar de postar, de se comunicar.
“Os questionamentos aumentaram nesse período. Ao mesmo tempo, a responsabilidade é intrínseca ao trabalho de produzir conteúdo na internet. Ou deveria ser. O ideal é a gente sempre se questionar e ficar atenta ao contexto”, diz Stephanie Noelle (@chez_noelle), jornalista e criadora de conteúdo há 9 anos. Ela conta que já deixou de postar vários conteúdos por perceber que outros assuntos mereciam mais visibilidade. “Meu conteúdo não é baseado no ativismo, mas sempre foi politizado, o que faz com que as pessoas esperem que eu me posicione. Ao mesmo tempo não quero falar: ‘olha só mais uma coisa horrível’. Quando sinto que tenho a contribuir, trago. Não acho que silêncio é omissão. Às vezes a melhor coisa que a pessoa pode fazer é ficar quieta e deixar pessoas que saibam falar, falarem.”
Por ser trabalho para muitos, deixar de postar também acaba trazendo uma certa ansiedade. “O algoritmo é importante pra gente aparecer. Ao mesmo tempo sou um pouco rebelde. Tento aceitar o meu tempo de produzir um conteúdo que faz sentido pra mim. E ele não é diário, não são stories cheios de pontinhos. É slow content, um jeito que eu acredito que é mais humano com a gente. Tenho escolhido o que faz mais sentido pra minha saúde mental.”
Ela tem tentando pegar leve com si mesma. “Tá todo mundo online. Tá todo mundo muito à flor da pele. Tenho pensado muito sobre o quanto as redes sociais podem ser esse lugar de gerar ansiedade nas pessoas, delas se sentirem conectadas o tempo todo mas sem se sentirem ligadas de fato. Penso no quanto contribuo ou não pra essa sensação ruim e penso em maneiras de contribuir de forma positiva.” E aponta três etapas para lidar melhor com essa pressão: respirar, estabelecer uma relação sincera com a sua audiência e praticar um exercício de gentileza com si mesmo. “Precisamos pensar: por que a gente faz o que faz? E tentar responder isso de uma forma gentil. Sair um pouco da produção e pensar, refletir, se nutrir de coisas legais. Pra que quando você postar seja algo que você faça porque está gostando mesmo.” Ela dá mais dicas no álbum.
Para além disso, precisamos falar sobre responsabilidade. “Da minha formação de jornalismo vem essa obrigatoriedade de ser responsável pelo que você escreve, publica, pela informação que está passando. Eu achava muito maluco como muitas pessoas colocavam a máscara de ‘isso é minha opinião’ pra falar sem ter responsabilidade. Agora mais do que nunca está claro que isso não existe. Se você produz conteúdo na internet, você tem sim responsabilidade”, diz ela.
Fez sentido pra você? Como não se deixar levar por uma ideia de que a produção incessante é a que traz resultados? Dá pra existir na internet de um jeito mais seu, e menos das fórmulas?




Confie no seu processo
No começo da quarentena, a internet pareceu ter sido inundada com posts sobre produtividade: aproveite para aprender um novo idioma/cuidar das plantas/tirar seu projeto do papel. Além de ser um discurso pouco inclusivo, a empolgação inicial deu espaço, três meses depois, para um cansaço quase palpável através da tela. Entre um extremo e outro, temos uma proposta de exercício: nos ouvirmos mais, antes de seguirmos no fluxo incessante da internet. Quem topa?
“Dificilmente alguém vai ter algo importante, que vai fazer pensar/inspirar, para falar todo santo dia, mais de uma vez por dia. É muito difícil manter esse ritmo, é até prejudicial”, diz Karla Lopes (@k.arlalopes), criadora de conteúdo. Nas primeiras semanas, ela interrompeu a criação. “Estava morrendo de medo, ansiedade. Fazia só as coisas de trabalho que não tinha como não fazer. Ao longo do tempo fui melhorando. Agora, apesar dos pesares, de todo dia ter uma marimba gigantesca para segurar nesse país, já voltei ao ‘normal’. Entrei num modo de que essa vai ser minha vida daqui pra frente e vou precisar me adaptar.”
Isso inclui, também, trazer para os posts questões para debate. “Certas notícias faço questão de falar. Sobre questões raciais principalmente. Acho importante criadores se posicionarem. Você não tem que transformar seu Instagram num palco político. Mas o silêncio, quando é silencioso demais, quando não há mínima manifestação, pode soar como se você estivesse sendo conivente com uma situação ruim. Nossa voz é importante pra gente mostrar que não estamos satisfeitos.”
Para além do momento turbulento, Karla identifica outros fatores que afetam a produção de conteúdo, como a exaustão e a síndrome da impostora. “Quando me sinto travada, busco minhas âncoras de trabalho: por que eu faço o que eu faço? Por que eu tô fazendo e como aquilo pode ajudar outras pessoas? Aí consigo ter um olhar mais acolhedor e trazer mais movimento pro meu conteúdo.” Olhar para si mesma com mais generosidade também contribui. “Temos que respeitar nossos processos. Não me forço a postar porque vou perder relevância, porque o algoritmo vai me ferrar. Não tô nem aí pra isso. Se sinto que não estou bem pra produzir não vou produzir. O meu processo e o meu bem estar são prioridade. Quando você cria conteúdo, você tá trazendo algo que é seu. Tento sempre me conectar com minha essência, de onde parte minha vontade de criar e a partir daí colocar meus projetos no mundo.”
Confia no seu processo é a mensagem.
E você, como cria seu conteúdo? É mais automático ou mais flutuante de acordo com as suas emoções?



O ciclo de criação de conteúdo
Continuar produzindo conteúdo em um cenário como o que estamos vivendo, confinada em casa e ainda com uma neném para cuidar.
A criadora @carolburgo aponta que sua produção tem oscilado. “Parece que qualquer coisa é irrelevante, fútil e sem sentido diante do cenário de vida que se apresenta na nossa frente”, desabafa. Em seguida menciona a importância de respeitar esse processo. “O mais interessante é que minha preocupação em postar não é porque EU me cobro isso, mas porque as pessoas me cobram. Se eu sumir por apenas 1 dia, começo a receber mensagem perguntando se tá tudo bem, se eu tô viva e eu preciso sempre ficar atenta pra não cair na pilha alheia.”
Isso se dá porque Carol acostumou sua audiência com análise profundas sobre temas diversos, de política a direitos da mulher. Ächo meio inútil ter ‘uma voz; que reverbera pra uma grande audiência e não usar essa voz para trazer reflexões, politizar algumas questões.” Por outro lado, ela acaba sendo cobrada por isso. “Poucos dias depois de ter neném, em pleno puerpério, as pessoas mandavam notícias terríveis esperando que eu comentasse tudo como se eu fosse a bancada do Jornal Nacional. Influenciadores que ‘se posicionam’ acabam sendo cobrados o tempo inteiro para falarem sobre o tudo o tempo todo e, além de não ser saudável, a gente também tem vida fora das redes. E um bebê!”
Ela costuma acompanhar perfis que constroem debates diariamente sobre questões diversas: socialismo, racismo, feminismo. “Eu bebo dessas fontes o tempo todo, leio artigos, matérias, posts e comento sobre alguma coisa quando consigo amarrar várias perspectivas sobre um assunto de forma simples. Hoje só tiro um tempo pra comentar algo de forma mais extensa quando chego nesse ponto, de conseguir sintetizar uma ideia.” Sem conhecimento sobre o assunto, pra quê opinar? “Nem sempre o silêncio é omissão, às vezes é simplesmente não saber. Porém, existem assuntos muito urgentes no Brasil e nesses casos, mesmo que a gente não saiba sobre o assunto, podemos sempre compartilhar conteúdos de quem tem conhecimento e fazer aquela mensagem chegar a mais pessoas.” E lembra: comentar algo não é sinônimo de não ser omisso. “Inúmeras marcas e pessoas se posicionaram contra o racismo nos últimos tempos e, no entanto, são marcas com denúncias de racismo nas costas e pessoas que votaram num presidente racista. De que adianta ‘opinar’ que o racismo tem que acabar, se não é isso que praticam? A omissão está na prática, não em ficar postando opinião em rede social.”


Para quem também está oscilando, Carol dá um conselho: “Não entra na pilha dos outros. Criar conteúdo demanda tempo para a própria criação e um segundo tempo extra pra lidar com tudo que te pedem DEPOIS do conteúdo estar criado. Sempre pedem mais, cobram mais, esperam mais. Não caia nessa pilha. Respeite seu tempo, sua vontade, sua saúde mental e opine, crie, se posicione naquilo que faz sentido pra você e que você DE FATO pratica.”