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A cultura do cancelamento é um fenômeno das redes sociais em que uma pessoa, geralmente pública, é boicotada momentaneamente depois de fazer ou dizer algo que é considerado errado/ofensivo por um grupo de pessoas. Pode durar três dias e logo ser substituído por um novo cancelamento, mas pode ter implicações profundas na vida de quem é alvo. O cancelamento não está restrito apenas a um famoso que se associou a um político, a uma cantora que levou ao palco um outro cantor acusado de transfobia ou a um youtuber que teve tweets racistas resgatados. Qualquer pessoa com um pouco mais de audiência pode ser cancelada. ⠀

Um texto publicado no Merriam-Webster, dicionário de língua inglesa, resume um pouco do fenômeno. “Há um aspecto performativo no cancelamento, pode-se argumentar que ele paradoxalmente amplifica aquilo que busca suprimir, mesmo que só naquele momento.” Não é à toa que, enquanto estão sendo cancelados, @s conseguem a proeza de aumentar o número de seguidores.

Você já acompanhou o cancelamento de alguém? Já aconteceu com você? O que acha disso? Nesta nova série da #ainternetqueagentequer, vamos investigar o tema 

O que pensam os influenciadores?

@spartakus
"Cancelamento só gera like com base na dor alheia. O ódio viraliza mais que o afeto."

Spartakus Santiago é youtuber, apresentador e colunista. Com mais de 200 mil seguidores, já foi alvo de cancelamento. “O cancelamento pode parecer uma diversão para as pessoas na internet (todo mundo tá falando mal de alguém, então vou falar também e ainda ganhar like com isso), mas para quem está do outro lado é algo muito pesado.” 

A origem do fenômeno, para ele, está na facilidade que a internet trouxe de nos aproximarmos das discussões. “Antigamente a mídia tradicional colocava no ar seus programas, se a gente não gostava, no máximo comentava com os amigos. Agora não. A gente pode responder diretamente o artista que tuitou algo que a gente discorda. A gente tá tentando entender onde vai esse poder.”

Quando foi cancelado, por fazer uma vaquinha pra ajudar nas suas despesas, Spartakus ficou com medo de sair de casa. “Meu vídeo teve mais de meio milhão de dislike. Eu achava que ia sair na rua e as pessoas iam me atacar. Após três dias o público já seguiu para outra polêmica, mas para o alvo do linchamento é outra história. “O que eu passei repercute na minha vida até hoje.”

Para ressignificar o episódio, começou a fazer terapias. “Hoje eu sou muito grato, mesmo com todos os problemas, porque esse episódio significou uma mudança de posicionamento. Passei a repensar minha forma de atuar na internet, me trouxe uma nova visão de mundo. Mas foi um processo pra chegar até isso, nem todo mundo tem as ferramentas, nem todo mundo pode pagar terapia. Não digo que virei a página ainda.”⠀⠀

Em um vídeo em seu canal, ele questiona: “Pra defender nossa causa vale propagar violência na internet? Pra combater monstro temos que virar monstro? Muita gente que faz cagada não sabe que tá fazendo cagada. Você pode ensinar a pessoa a acertar, em vez de humilhar. A pessoa não vai morrer com o linchamento, só vai ficar muito machucada e não vai aprender a lição.”

 

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@kripshna
"A partir do momento que eu 'errei' publicamente, já tava julgada e condenada de acordo com a verdade de cada um"

Há dez anos a @kripshna conta sua vida no Twitter para quase 100 mil seguidores. Há três anos, começou a ganhar visibilidade e, com isso, atraiu crítica. “Até aí tudo bem, ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Mas há uns meses começou essa mania do cancelamento. Se você fala uma coisa que desagrada, tá invalidada para sempre.”

Ela percebe que o cancelamento é algo que acontece com mais frequência no Twitter. “Por ser uma rede onde as pessoas se expõem muito e de maneira muito crua, fica mais ‘fácil’ de se detectar algumas divergências, comportamentos que não são unanimidades, deslizes etc. Tudo que você fala pode atingir uma projeção muito grande, é a rede com maior facilidade de propagação. A informação pode chegar descontextualizada e cada um interpreta de acordo com suas vivências.”

Da primeira vez que foi cancelada, ela se surpreendeu ao ver que existia ali na rede toda uma galera esperando pra fazer o escracho. Foi aí que, no caso dela, percebeu que não adianta se desculpar, tinha que deixar pra lá. “Hoje em dia quando algum tweet começa a ser problemático, eu silencio e fico com a cabeça tranquila de que não tenho motivos pra ficar me justificando pra desconhecidos na internet e que nunca vou agradar todo mundo”, diz. “Aparentemente quando você atinge um certo número de seguidores você perde seu status de ‘pessoa’ e vira uma ‘coisa’, uma persona que tá ali publicamente para as pessoas falarem o que quiserem.” Ela acrescenta que na rede social a gente imprime só uma faceta da nossa vida. “Ninguém ali sabe se eu tô num momento bacana pra receber uma chuva de críticas. Mas ninguém se importa também, o que é contraditório porque geralmente é a mesma galera que milita cobrando empatia.”

“Tá cancelado!”: origens e implicações 

De onde vem esse fenômeno da cultura do cancelamento? Quais as implicações para quem é cancelado? E pra quem cancela? É efetivo, ou três dias depois já vem uma nova polêmica?

O psicanalista Lucas Liedke (@psicanaliedke) explica que o cancelamento enquanto fenômeno está alinhado ao pensamento neoliberal em que vivemos, onde pautamos as nossas escolhas pela mentalidade de consumo e substituição. “Podemos deixar de comprar produtos de uma empresa envolvida em um escândalo ambiental, assim como cortamos os vínculos com um familiar em função de seu posicionamento político.”

Ele acrescenta que hoje a mentalidade do cancelamento se expande para outros contextos, como nas escolas, onde um adolescente, em função de uma atitude controversa, pode ser cancelado em seu círculo social e para além dele. “Escolhemos quem apoiar, decidimos quem seguir e permitimos que uns ou outros ocupem mais ou menos espaço em nossas vidas (e em nosso feed). No fim das contas, é sobre assumir o controle de quem merece o nosso amor, nossa atenção e nosso dinheiro. Na lógica implacável do descarte, convivemos sempre com a possibilidade de que dá pra tirar um para colocar outro melhor”, completa.

O psicanalista ainda destaca quais as implicações para quem é cancelado e para quem cancela. “O impacto de uma tentativa de cancelamento pode variar muito. Pode levar o sujeito cancelado à uma condição depressiva e de isolamento, mas também pode gerar um efeito reverso. Um movimento coletivo de cancelamento é um ato performático que inevitavelmente também gera destaque e atenção àquele que está sendo supostamente cancelado, ainda que a intenção original seja esvaziar o seu poder e sua relevância no campo social. Em uma batalha de opiniões e ideologias, um sujeito que é linchado virtualmente pode inclusive ganhar muitos novos apoiadores que simplesmente se posicionam de forma contrária ao grupo que está realizando o linchamento. O cancelamento ou o anti-cancelamento são fragmentos identitários que entregam uma sensação de pertencimento a um determinado grupo.”

Outra crítica importante ao extremismo do cancelamento, ele complementa, é que quem cancela pode muitas vezes cair em uma posição de suposta justiça divina, como se estivesse absolutamente ileso de qualquer erro humano. “Apontamos a falha/falta de caráter do outro quando ela é explícita e insuportável para nós, mas raramente reconhecemos os nossos próprios preconceitos e intolerâncias. Ou seja, só cancelamos o outro mas nunca a nós mesmos. Então que tipo de julgamento é esse?”⠀⠀⠀

Para além do cancelamento em si, existe um peso no uso das palavras. Em que momento achamos que invalidar completamente o que uma pessoa diz é solução? A escritora e professora Cris Lisbôa, que faz o @gowriters, resume bem isso: “O cancelamento é reflexo de uma sociedade com dificuldade de diálogo. As pessoas querem usar as palavras mais fortes que conhecem para que a fala seja definitiva. Assim se lacra, cancela e pisa. Assim ninguém se humaniza.”

Mais construção e menos cancelamento

Cultura do cancelamento” foi escolhida como expressão que melhor representa 2019 pelo dicionário Macquarie. Em um tempo de polarizações e de tanta dificuldade em dialogar, nada mais sintomático, né?

Na construção da #ainternetqueagentequer, sempre perguntamos: como podemos construir uma internet mais humana? Nesse caso, acrescentamos: como podemos lidar com a cultura do cancelamento? Adoraríamos ouvir as opiniões de vocês sobre isso nos comentários.

Para @spartakus, se você está sendo cancelado, vale se afastar um pouco das redes sociais e lembrar que o mundo é mais que a internet. O psicanalista Lucas Liedke (@psicanaliedke) fecha esse nosso especial com mais uma reflexão. “Encontrar um bode expiatório para representar o grande mal de uma luta moral ou ideológica é uma manobra coletiva no mínimo cruel contra um único indivíduo. Ao mesmo tempo, é uma forma efetiva de criar uma marcação simbólica no tempo e na cultura.

A ideia de um cancelamento estabelece um limite no que pode ser feito ou dito em sociedade. É sobre estabelecer uma fronteira e garantir que haja algum tipo de represália ou punição para quem passar desse ponto. O estado, a igreja e outras instituições têm seu poder diluído hoje em uma sociedade mais estruturada em rede, fazendo com que a grande massa, ela própria, aja como grande Pai regular e controlador. É como se alguém estivesse realmente precisando pôr ordem nessa bagunça, nem que seja o Trending topics do Twitter”

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